sexta-feira, 23 de maio de 2008

Lições de um cafajeste.


Tome a dama pela cintura. Segure com a suavidade de um zéfiro sua delicada mão. Prefira a direita, a mão direita. A postura deve ser ereta. Lembre-se que você é o Dom Juan do momento. Não que você seja, realmente, um Dom Juan de Marco, mas para ela isso não importa. Pouco importa. Para a dama que o acompanha só existe você. Você é o centro do universo. Saiba disso, mas não abuse. Seja seguro. Transmita segurança. Mulheres querem segurança. Mulheres querem dormir ao seu lado e acordar sob seu aconchego. Segurança não significa pagar a conta, muito embora isso venha a ser necessário. Sorria. Sorria com discrição. Sorria só para ela. Sorria como se o mundo estivesse parado, congelado, em stand by. Sorria por estar com ela. Olhe em seu olhos. Um olhar que esteja entre "vou te comer nessa noite, gostosa" e "como é bom estar contigo, minha doce amada". Lembre-se: os olhos devem insinuar. Um olhar conjugado com o devido sorriso é arma devastadora na alma de uma mulher. Pense. Mas pense muito antes de falar. Abrir a boca requer prudência. Prudência, espontaneidade e malícia. Seja ambíguo sem ser prolixo, seja simples e direto sem parecer um psicopata. Seja malemolente. Malandro. Cafajeste. As mulheres preferem os cafajestes, muito embora não publiquem isso em artigos, revistas especializadas ou, ainda que questionadas, neguem até a morte. Tal preferência, meu caro, está gravada no DNA das mulheres. Mas cuidado: não banque o geneticista. Apenas utilize essa informação. Investigar a veracidade desta afirmação atestará sua condição de babaca. Lembre-se: mulheres gostam dos cafajestes, não dos babacas. Use de sua inteligência. Lembre de sua vida. Lembre das obras de Nelson Rodrigues. Passeie por Goethe. Revisite Hilda Hist. Incorpore os ensinamentos de Machado de Assis. Sobretudo, leia. A alma das mulheres está na poesia. Conheça a alma da mulher, sem que para isto tenha que levá-la a um centro espírita. Vá até o obscuro de sua vida, galante. As mulheres costumam ter orgasmos múltiplos quando galanteadas por um verdadeiro cafajeste. Seja um poeta. Poesia é arte de dizer sem muito falar. Poesia é a receita para tudo. Não use clichês. Clichês podem ser fatais nesse momento. E, por favor, pare de encostar seu peito contra os seios dela, por mais que isso seja difícil. Não seja um garoto bobão. De nada adianta o tamanho do seu pinto se seu cérebro não é capaz de saber a hora de usá-lo. Incline-se. Dê o primeiro passo. Logo após, dê o segundo passo. Isso. Simples como dançar. Um passo após o outro. Inove. Dê voltas. Segure-a no ar. Traga-a para perto de você. Permita que a menina que tanto deseja possa girar pelo salão. Ela precisa ser vista. Seu amor não cabe dentro de si, tampouco sua beleza. Horas e horas diante de um espelho, meu caro, têm razão de ser. Entenda isso. Reinvente os ritmos. Mude as posições. O amor de um cafajeste deve soar como um tango, mas parecer uma boêmia bossa-nova. Saiba que a música sempre acaba. Querer dançar para sempre pode afugentar sua menina, as amigas dela e as amigas das amigas dela. O tango é imprevisível. A bossa-nova anseia por ser ouvida pelo tempo dos séculos. Conheça os outros ritmos. Nem todas as mulheres possuem bom gosto. Saiba a hora de parar. Conheça o momento em que paradas abruptas podem transformar sua sala de dança na apoteose do carnaval carioca. Dançar poderá ser cansativo. Dançar poderá lhe trazer alegrias. Mas lembre-se: jamais esqueça dos passos dados. Tenha a memória de um ancião, pois as mulheres possuem a memória de um computador da NASA. Não se trata de graça divina, mas de muito treinamento. Por fim, caro galante, aceite quando chegar a hora dos pares serem trocados, e saiba, sobretudo, que novas músicas virão.

Assim é a arte da dança. Assim é a arte de encantar uma mulher.


quinta-feira, 15 de maio de 2008


segunda-feira, 12 de maio de 2008

Decreto: ficam proibidos beijos de língua na fila de supermercados.


Sábado, dez horas da noite. Nada havia para fazer, além de nada a fazer. Será possível fazer nada? Sim, eu garanto. Fui até a cozinha. Abri a geladeira. Olhei, olhei novamente, olhei mais uma vez e quase fui engolido pelo vácuo. Vi várias coisas. Mas nada do que procurara. Fui ao mercado. Resolvi escolher um supermercado. Um desses grupos multinacionais, que exploram os povos para vender seus produtos para os povos que exploram. Esses supermercados com música ambiente - jazz, é claro - , pisos laminados e com aquelas atendentes que te tratam como um sultão! Coisa estranha, não? Também sou um deles. Um explorado. Mas, enfim, era sábado, e eu tinha fome. Fome à minha maneira, é claro.
Aquela fome me consumia. Peguei o carrinho. Fiz muita força para tirá-lo do convívio dos demais. Sempre achei que alguma coisa acontece quando tentamos retirar um carrinho de supermercado daquela grande fila de carrinhos de supermercado. É como se tentássemos arrancar um filho dos braços de sua mãe: ou se tem jeito ou se usa de uma força sobre-humana (já que carrinhos não cedem a chantagens). Peguei o carrinho. Manobrei-o. Fui em direção à prateleira das "porcarias". É assim que minha mãe chama toda a comida que seja colorida, não dê "sustância" e tenha aspecto de "de-onde-veio-isso-meu-Deus?". Comecei a dura tarefa de preterir porcarias gostosas por outras mais gostosas. Escolhi uma barra de chocolate, um saquinho de amendoim colorido, um tubo de batatas fritas americanas e um pacotinho de mandolate. Ahh o mandolate. Aquelas barrinhas brancas de amendoim e caldo de cana me lembram a infância, por dois motivos. Primeiro, porque odiava ter que esperar o ônibus de Santo Antônio da Patrulha passar na rua da minha casa da praia para vender os cobiçados doces. Segundo, porque sempre que comia me dava dôr de barriga. Na verdade, era como se, após comer os mandolates, todo o cocô do mundo, depois de eras de espera, fosse cuspido pelo meu cuzinho. Acho, até hoje, que deviam se chamar "cagalates". Não sei se o nome é atrativo. Melhor continuar chamando de mandolates!

Me dirigi até a prateleira das bebidas. Escolhi uma garrafa de vinho oriunda de um país da américa do sul. Leia-se Chile. Pus a garrafa no carrinho. Olhei para o lado, como quem pensa se está esquecendo de algo. Havia apanhado tudo. Fui em direção ao caixa. Entrei na fila. Sendo honesto, o que ocorreu foi que a fila me chamou. Sim: fui chamado por uma gigante, enorme, infinita e lenta fila. Todas eram assim, confesso. Parecia que o caixa era a alfândega de um país vítima de uma catástrofe, e todas aquelas pessoas refugioados tentando salvar sua pele. Tive paciência. Esperei. Fiz yoga. Meditei. Abri o saco de mandolates. Comecei a comê-los, ali mesmo, até ser supreendido por um casal que estava logo a minha frente, logo depois de uma senhora gorda. O casal parecia estar apaixonado. Era um desses casaisinhos novos, cheios de amor para dar. Beijavam-se. Na hora não dei muita bola. Segui comendo meus mandolates e pensando numa forma de furar a fila. Mas aquilo começou a me incomodar na medida em que os beijos ficavam mais intensos, mais demorados. Na medida em que distinguir "quem-era-quem" tornava-se tarefa impossível. Qualquer professor de Direito Penal diria que se tratava de autêntico atentado violento ao pudor. Ali, a dois metros de mim. Um atentado violento ao pudor. Beijos grandes, beijos longos, beijos no canto da boca, chupadelas na língua. Beijos de língua. Aqueles beijos estalados, de causar inveja ao melhor desentupidor da cidade. Olhei para cima, para baixo, olhei para os lados. Comi mais um mandolate. Pensei em chamar o segurança. Pensei em colocar uma bomba de urânio entre aquele casal apaixonado, e chato. Pensei em dizer que conhecia a moça, que ela era minha vizinha, que saíra na noite passada com o Toni, meu amigo. Pensei em dizer que o cara estava com uma cor estranha, como se estivesse com alguma moléstia grave, e transmissível. Pensei. Pensei e pensei. Os beijos não paravam. Pedi licença à senhora gorda. Tinha um plano. Diria para eles que aquela melação - característica dos casais bobinhos que se amam, que se querem, que esquecem do mundo para viver aquilo que entendem ser o amor, aquilo que os consome - estava me incomodando. Calei. Fui calado por um abraço. Um longo, forte e apaixonado abraço. Um encontrar dos braços da menina em torno do corpo do rapaz - aqueles abraços em que a menina fica na ponta dos pés, como se o chão não lhe fosse necessário. Calei. Calei e fui para casa, pensando na fila, naquele casal e no amor!

Por semanas estou a colher assinaturas para que seja aprovado um projeto que proíba beijos de língua entre casais apaixonados na fila dos supermercados. Quero mais. Quero que os beijos de língua, agarrões, cuti-cutis de toda a ordem e outros atos afins sejam banidos da face da terra. Quero que a paixão fique em ostracismo por tempo indeterminado. Pelo tempo necessário. Pelo tempo suficiente! Pelo menos, até que eu encontre uma namorada!


Busco hombre de más de cincuenta para cantarle las cuarenta


Senado Boliviano aprova medida para revogar mandato de Evo


Bolívia, La Paz.

O Senado boliviano, dominado pela oposição, aprovou na última quinta-feira uma lei que deixaria aberta a porta para uma eventual revogação dos mandatos do presidente Evo Morales, do vice-presidente e dos nove governadores. A iniciativa de lei é uma tentativa de conter a aprovação do referendo do projeto constitucional que prolongaria o mandato. A aprovação contou com o respaldo do Movimento ao Socialismo (MAS), disse o senador do aludido partido, Félix Rojas. A norma foi enviada ao presidente Evo Morales que deverá promulgá-la, informou o Senado. A aprovação foi recebida com surpresa pelo Governo Morales, que ainda poderá vetar a lei, apesar de não ter dito se a vertará. "El Ejecutivo va a evaluar pero esa aprobación después de tanto tiempo surge en momentos en que el gobierno y el país están tratando de encontrar soluciones a otro tipo de problemas como es consensuar la nueva constitución con los estatutos de autonomía", declarou o porta voz da presidência, Iván Canerlas. (Fonte Jornal El Mundo - íntegra do projeto através do linK
http://www.elmundo.com.bo/Secundarianew.asp?edicion=09/05/2008&Tipo=Nacional&Cod=7693)

domingo, 9 de março de 2008

: : CORAÇÃO : :

_ Não sou muito de escrever. Confesso. Mas não poderia negar o convite que me foi dado, por um ilustre amigo. Devo colocar algo? Então que as cortinas se abram...

_ Há muito tempo li algo que me cativou. Falava sobre sentimento. Coração. Perdi a essência do livro, do autor, e até mesmo das palavras. Mas a encontrei, com a ajuda de uma amiga virtual. Após reler as palavras do incompreendido Caio F. fiz umas linhas no mesmo contexto das dele: "Meu coração é uma contradição. Tudo que faço, faço tudo. E nada que posso, posso tudo. No verso e reverso jogo uma moeda, rezando e amaldiçoando para dar cara de rei".

: : CORAÇÃO : :
Na terra do coração passei o dia pensando - coração meu, meu coração. Pensei e pensei tanto que deixou de significar uma forma, um órgão, uma coisa. Ficou só com-cor, ação - repetido, invertido - ação, cor - sem sentido - couro, ação e não. Quis vê-lo, escapava. Batia e rebatia, escondido no peito. Então fechei os olhos, viajei. E como quem gira um caleidoscópio, vi:

Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe.

Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível. Este apertava os olhos quando sorria. Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça. Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra.

Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável.

Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.

Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.

Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.

Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.

Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se pôs. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.

Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada.

Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco.

Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar será feliz para sempre.

Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: “I’m too pure for you or anyone”. Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.

Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.

Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.

Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.

Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam destruindo tudo.

Meu coração é uma planta carnívora morta de fome.

Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos - ai de mim! ai, ai de mim!

Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Veja. Levam junto quem me ama, me levam junto também.
Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso. Acesa, aceso - vasto, vivo: meu coração teu.

Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Mundinho

se você perguntar
onde quero chegar
com esse meu jeito morno
de te interpretar

saibas não vou dizer
o que gosto de ler
nem abrir pra vc
o meu mundinho

onde apertadinhos
guardo carinhos,
doces flertes e beijinhos

onde, no escurinho,
escondo todinho
o meu bem-querer

mas se você insistir
e teimar em ouvir
o que leio em tuas linhas
vou lhe despistar

te perder do teu ser
e então lhe falar
que meu truque é te olhar
saber como és
e assim te querer
sem razão ou porque

até que um dia, entre nós,
não haja nenhum “após”,

que os abraços distantes
transformem-se em nós

e com o silêncio da voz
o meu dizer esteja
em tua lembrança

que o teu querer
sem saber
se desprenda do teu não
e queira ser ouvido

e então,
bem loguinho,
por estar tão pertinho
acenda meu mundinho
e me ame.