
Assim é a arte da dança. Assim é a arte de encantar uma mulher.
o estímulo elétrico do seu sistema límbico.


Sábado, dez horas da noite. Nada havia para fazer, além de nada a fazer. Será possível fazer nada? Sim, eu garanto. Fui até a cozinha. Abri a geladeira. Olhei, olhei novamente, olhei mais uma vez e quase fui engolido pelo vácuo. Vi várias coisas. Mas nada do que procurara. Fui ao mercado. Resolvi escolher um supermercado. Um desses grupos multinacionais, que exploram os povos para vender seus produtos para os povos que exploram. Esses supermercados com música ambiente - jazz, é claro - , pisos laminados e com aquelas atendentes que te tratam como um sultão! Coisa estranha, não? Também sou um deles. Um explorado. Mas, enfim, era sábado, e eu tinha fome. Fome à minha maneira, é claro.
Aquela fome me consumia. Peguei o carrinho. Fiz muita força para tirá-lo do convívio dos demais. Sempre achei que alguma coisa acontece quando tentamos retirar um carrinho de supermercado daquela grande fila de carrinhos de supermercado. É como se tentássemos arrancar um filho dos braços de sua mãe: ou se tem jeito ou se usa de uma força sobre-humana (já que carrinhos não cedem a chantagens). Peguei o carrinho. Manobrei-o. Fui em direção à prateleira das "porcarias". É assim que minha mãe chama toda a comida que seja colorida, não dê "sustância" e tenha aspecto de "de-onde-veio-isso-meu-Deus?". Comecei a dura tarefa de preterir porcarias gostosas por outras mais gostosas. Escolhi uma barra de chocolate, um saquinho de amendoim colorido, um tubo de batatas fritas americanas e um pacotinho de mandolate. Ahh o mandolate. Aquelas barrinhas brancas de amendoim e caldo de cana me lembram a infância, por dois motivos. Primeiro, porque odiava ter que esperar o ônibus de Santo Antônio da Patrulha passar na rua da minha casa da praia para vender os cobiçados doces. Segundo, porque sempre que comia me dava dôr de barriga. Na verdade, era como se, após comer os mandolates, todo o cocô do mundo, depois de eras de espera, fosse cuspido pelo meu cuzinho. Acho, até hoje, que deviam se chamar "cagalates". Não sei se o nome é atrativo. Melhor continuar chamando de mandolates!
Me dirigi até a prateleira das bebidas. Escolhi uma garrafa de vinho oriunda de um país da américa do sul. Leia-se Chile. Pus a garrafa no carrinho. Olhei para o lado, como quem pensa se está esquecendo de algo. Havia apanhado tudo. Fui em direção ao caixa. Entrei na fila. Sendo honesto, o que ocorreu foi que a fila me chamou. Sim: fui chamado por uma gigante, enorme, infinita e lenta fila. Todas eram assim, confesso. Parecia que o caixa era a alfândega de um país vítima de uma catástrofe, e todas aquelas pessoas refugioados tentando salvar sua pele. Tive paciência. Esperei. Fiz yoga. Meditei. Abri o saco de mandolates. Comecei a comê-los, ali mesmo, até ser supreendido por um casal que estava logo a minha frente, logo depois de uma senhora gorda. O casal parecia estar apaixonado. Era um desses casaisinhos novos, cheios de amor para dar. Beijavam-se. Na hora não dei muita bola. Segui comendo meus mandolates e pensando numa forma de furar a fila. Mas aquilo começou a me incomodar na medida em que os beijos ficavam mais intensos, mais demorados. Na medida em que distinguir "quem-era-quem" tornava-se tarefa impossível. Qualquer professor de Direito Penal diria que se tratava de autêntico atentado violento ao pudor. Ali, a dois metros de mim. Um atentado violento ao pudor. Beijos grandes, beijos longos, beijos no canto da boca, chupadelas na língua. Beijos de língua. Aqueles beijos estalados, de causar inveja ao melhor desentupidor da cidade. Olhei para cima, para baixo, olhei para os lados. Comi mais um mandolate. Pensei em chamar o segurança. Pensei em colocar uma bomba de urânio entre aquele casal apaixonado, e chato. Pensei em dizer que conhecia a moça, que ela era minha vizinha, que saíra na noite passada com o Toni, meu amigo. Pensei em dizer que o cara estava com uma cor estranha, como se estivesse com alguma moléstia grave, e transmissível. Pensei. Pensei e pensei. Os beijos não paravam. Pedi licença à senhora gorda. Tinha um plano. Diria para eles que aquela melação - característica dos casais bobinhos que se amam, que se querem, que esquecem do mundo para viver aquilo que entendem ser o amor, aquilo que os consome - estava me incomodando. Calei. Fui calado por um abraço. Um longo, forte e apaixonado abraço. Um encontrar dos braços da menina em torno do corpo do rapaz - aqueles abraços em que a menina fica na ponta dos pés, como se o chão não lhe fosse necessário. Calei. Calei e fui para casa, pensando na fila, naquele casal e no amor!
Por semanas estou a colher assinaturas para que seja aprovado um projeto que proíba beijos de língua entre casais apaixonados na fila dos supermercados. Quero mais. Quero que os beijos de língua, agarrões, cuti-cutis de toda a ordem e outros atos afins sejam banidos da face da terra. Quero que a paixão fique em ostracismo por tempo indeterminado. Pelo tempo necessário. Pelo tempo suficiente! Pelo menos, até que eu encontre uma namorada!

Bolívia, La Paz.
O Senado boliviano, dominado pela oposição, aprovou na última quinta-feira uma lei que deixaria aberta a porta para uma eventual revogação dos mandatos do presidente Evo Morales, do vice-presidente e dos nove governadores. A iniciativa de lei é uma tentativa de conter a aprovação do referendo do projeto constitucional que prolongaria o mandato. A aprovação contou com o respaldo do Movimento ao Socialismo (MAS), disse o senador do aludido partido, Félix Rojas. A norma foi enviada ao presidente Evo Morales que deverá promulgá-la, informou o Senado. A aprovação foi recebida com surpresa pelo Governo Morales, que ainda poderá vetar a lei, apesar de não ter dito se a vertará. "El Ejecutivo va a evaluar pero esa aprobación después de tanto tiempo surge en momentos en que el gobierno y el país están tratando de encontrar soluciones a otro tipo de problemas como es consensuar la nueva constitución con los estatutos de autonomía", declarou o porta voz da presidência, Iván Canerlas. (Fonte Jornal El Mundo - íntegra do projeto através do linK http://www.elmundo.com.bo/Secundarianew.asp?edicion=09/05/2008&Tipo=Nacional&Cod=7693)